Sumário
Ir para a Patagônia de carro parece simples quando você olha no mapa. Mas, viajante, quando você realmente decide fazer essa viagem, surgem dezenas de perguntas. Qual é o melhor caminho? Onde abastecer e parar? Quais estradas são boas e quais você deve evitar? E principalmente: como é atravessar milhares de quilômetros até chegar lá?
Na expedição Caminhos da Patagônia, a gente teve companhia especial. Meus pais já conheciam a Patagônia, mas nunca tinham ido a Bariloche. O desafio era levar eles até lá de carro, junto com a Ju, a Alice e o Luquinhas, nosso filho de quase 5 meses, que ia conhecer a neve pela primeira vez. Aqui vai o roteiro completo, dia a dia, com tudo o que a gente aprendeu na estrada.
A expedição começa antes de sair
Antes de pegar a ruta, o carro deve passar por uma revisão completa. A gente confere os pneus e o estepe (pressão com o carro carregado, desgaste, cortes, bolhas e data de fabricação), freios, óleo e todos os fluidos, a saúde da bateria, todas as luzes e os limpadores e o para-brisa. Parece básico, mas é isso que garante tranquilidade quando o próximo posto está a centenas de quilômetros.
A legislação argentina também exige alguns itens obrigatórios, como extintor fixado e ao alcance do condutor, dois triângulos e cinta de reboque ou cambão (nós levamos só a cinta). Além disso, sempre levamos um colete refletivo por pessoa, compressor 12V, kit de reparo de pneu, cabo de bateria, lanterna forte e um kit básico de ferramentas. Correntes de neve a gente nunca levou, mas, se o seu carro não for 4×4, vale a pena.
Depois de todas as revisões envolvendo o carro, equipamentos obrigatórios, documentação e demais itens, estamos preparados para pegar a estrada.
Dia 1: São Borja até Chajarí, a aterrissagem na estrada
A primeira dica é muito importante: aproveite São Borja para fazer aquela parada completa antes de entrar na Argentina. Depois da fronteira, o trecho até Chajarí tem poucas opções de parada realmente estruturada. Então abasteça, almoce, vá ao banheiro, organize o carro e só então siga viagem. Saia de São Borja tanqueado. A gente passou por dois postos no caminho e só parou de novo a uns 40 km de Chajarí.
A fronteira de São Borja é uma das mais rápidas. É ponte, você não precisa descer do carro: entrega os documentos, eles dão entrada no sistema e você segue. Raramente pedem para revisar o porta-malas.
A gente faz esse roteiro há muitos anos por um motivo simples: saindo de Cerro Largo no meio da manhã (às 9h30, por exemplo), almoçamos em São Borja e chegamos em Chajarí ainda com luz do dia. Dá tempo de tomar um banho, jantar e dormir cedo. São umas 5 horas de estrada no total. Depois de 514 km percorridos, paramos no Hotel Río para descanso.
E uma coisa que mudou muito: tem gente que ainda acha que na Argentina você precisa dar dinheiro para policial na estrada. Quando eu era criança, isso era real. Mas nos últimos 5 anos, rodamos cerca de 40 mil km por lá e nunca fomos alvo de corrupção. Os postos policiais estão ali para fiscalizar e trazer segurança.
Dia 2: Chajarí até Santa Rosa, o dia das retas intermináveis
Esse é o dia com maior deslocamento, com cerca de 1.000 km. E aí vai uma lição que aprendemos na prática. A ideia era sair às 7h e acabamos saindo às 8h30. Essa 1 hora e meia faz muita falta no final do dia, ainda mais quando você pega muito caminhão, como aconteceu dessa vez.
Além disso, é o trajeto das clássicas retas argentinas, passando por muitas fazendas com gado. Santa Rosa é a capital da província de La Pampa, com uns 116 mil habitantes e uma economia muito forte no agro. Para quem gosta dessa área, é uma região que vale pesquisar, com bastante turismo rural.
E uma regra de ouro do combustível na Argentina: achou um posto bom e está com metade do tanque, ou um pouco mais? Abastece. Você não sabe quando vai ter outro.
Você deve estar se perguntando o motivo de fazer uma etapa tão longa. Para mim, numa viagem desse tamanho, não basta dividir os quilômetros de qualquer jeito. Esse dia mais pesado distribui melhor os próximos deslocamentos. Ou seja, Santa Rosa funciona como parada estratégica.
Ali, ficamos no hotel La Campiña, sendo nossa terceira vez. O estabelecimento fica na Ruta 5 Km 604, L6300, sem precisar entrar na cidade e tem estacionamento aberto. Isso importa para quem vai de motorhome, trailer ou de Defender, que tem 2,40 m de altura.
Dica para quem viaja com criança: sozinho, qualquer hotel resolve. Com criança, um bom hotel é investimento. Não adianta dar tablet ou celular, isso não gasta energia, deixa a criança ansiosa. Um lugar para correr e brincar faz toda a diferença para aproveitar o dia seguinte.
Dia 3: Santa Rosa até Neuquén, encarando a estrada do deserto
São 540 km e um trecho que eu diria desafiador: a estrada do deserto. São cerca de 200 km de grandes retas, monótonas, com animais na pista e muitos buracos de 8 cm a 20 cm de profundidade. Você não consegue andar rápido nem seguir uma linha só. Tem que ir contornando, indo para o acostamento e voltando.
O que fazer nesse trecho:
- Dirija de dia. Evite a estrada à noite em todo o caminho para a Patagônia.
- Calibre os pneus com mais libras por causa dos buracos.
- Saia abastecido porque não tem posto nesse trecho.
- Vá sem pressa.
Existe uma rota alternativa: Saindo de Santa Rosa, dá para pegar um desvio com estradas em melhores condições, que volta a encontrar a rota principal mais adiante. A gente foi pela estrada do deserto na ida e vai voltar pelo caminho alternativo. No seu planejamento, coloque as duas opções.
Depois de uns cento e poucos quilômetros de estrada ruim, o asfalto melhora e a viagem rende. A única parada estruturada é o posto Pampetrol. Ali abastecemos, pegamos água quente para o chimarrão, comemos aquelas empanadas que nunca nos abandonam e dá uma caminhada. Depois começa a ruta cênica: guanacos, cabras e paisagens que a gente não tem no Brasil.
Atenção à barreira sanitária: Logo depois desse posto tem um controle sanitário. A gente estava com um saco de maçã brasileira e ficou sem elas. Não leve frutas.
Neuquén surpreende pela estrutura: bons hotéis, restaurantes, mercados e serviços. Ela não é só uma parada para dormir, é a base estratégica para a última etapa. Para o momento de descanso, escolhemos o Hotel Land Express.
Dia 4: Neuquén até Bariloche, a recompensa
São uns 420 km, sendo uma das estradas mais legais da viagem. Você sai da geografia do deserto e vai tateando as montanhas até chegar na Patagônia com aquele acabamento geográfico de Bariloche, com ganho de altitude e montanhas nevadas.
A parada oficial é Piedra del Águila, que eu chamo de portal de entrada dessa região. Tem posto e um restaurante muito típico. Abasteça ali e deixe tudo alinhado. No resto do caminho, as paradas são contemplativas. Os últimos 150 km chegando em Bariloche parecem um prêmio pelos dias de estrada.
Afinal, ir para a Patagônia de carro vale a pena?
Na nossa opinião, vale muito. Mas depende de como você faz. Dá para ir do Rio Grande do Sul até Bariloche em dois dias? Dá, é só acelerar. Vai ser uma viagem prazerosa, que você degusta? Na minha opinião, não.
Numa viagem dessas, o destino importa, claro. Só que a estrada importa muito também. É entender a geografia, parar, descansar e não chegar “moído”, precisando de dois ou três dias para se recuperar. Dividindo em etapas, você para em postos e lugares que acha legais sem se preocupar em chegar tarde.
Talvez seja porque a gente viaja com criança, mas eu e a Ju já viajávamos assim antes. Tem gente que prefere ir rápido, e tudo bem. Vai de cada um.
Se você está planejando sua viagem para a Patagônia de carro, aproveite para baixar o e-book completo da expedição Caminhos da Patagônia, feito por quem já foi para lá diversas vezes, e assista ao episódio completo no YouTube.
No próximo, o desafio é outro: montar um roteiro por Bariloche que faça meus pais quererem voltar.
Até logo, viajantes.
