Sumário
Na Argentina, Mendoza é um dos destinos que reúne diferentes experiências em uma viagem. Aos pés da Cordilheira dos Andes, a província combina paisagens, gastronomia, aventura, hotéis charmosos e, principalmente, uma das mais importantes tradições vitivinícolas da América do Sul.
Conhecida como a Capital do Vinho Argentino, Mendoza concentra cerca de 70% da produção de vinhos do país e tem no Malbec uma de suas principais expressões. O enoturismo, por sua vez, vai muito além de simplesmente visitar uma bodega: é uma oportunidade de conhecer os terroirs e a cultura da região.
São mais de 1.200 vinícolas na cidade, com opções artesanais, sofisticadas, industriais, modernas… E eleger o melhor roteiro para explorar os locais é uma missão quase impossível. Para ajudar nessa tarefa nós, Renato Weil e Glória Tupinambás, viajamos por Mendoza a bordo do nosso motorhome A Casa Nômade durante mais de 20 dias. Depois dessa expedição, reunimos dicas e sugestões para transformar seu passeio por Mendoza em uma experiência incrível!
Vinícolas em Mendoza
O roteiro desse post nasceu de uma experiência de mais de 20 dias em Mendoza a bordo do motorhome A Casa Nômade. A experiência permitiu conhecer diferentes propostas de enoturismo e reunir uma seleção bastante diversa de bodegas. Confira abaixo:
El Enemigo
A Casa El Enemigo é uma das experiências que mais chamam atenção pela combinação entre vinho, gastronomia, arquitetura e narrativa.
A proposta de Alejandro Vigil utiliza referências à Divina Comédia, de Dante Alighieri, transformando a visita à vinícola em uma experiência que vai muito além da degustação.
A bodega foi batizada de Los Valentes; a plantação, Nuestros Viñedos; e o restaurante, Los Glotones. E como na obra-prima de Dante, o passeio pela vinícola e pelas adegas de conservação do vinho são um convite a atravessar os reinos além-túmulo, começando pelo inferno, depois o purgatório e, finalmente, o paraíso.
Um dos destaques é justamente a possibilidade de perceber como diferentes terroirs podem influenciar um mesmo tipo de uva, uma característica especialmente interessante para quem deseja compreender melhor o universo do vinho.
Chandon
A Chandon é uma das referências quando o assunto é espumante na Argentina.
A história da marca está ligada à tradicional Maison Moët & Chandon, fundada na França, e à expansão do grupo para a América do Sul.
Em Mendoza, a experiência combina arquitetura, produção, degustação e gastronomia, tornando a visita interessante tanto para apaixonados por vinhos quanto para quem está começando a descobrir o universo do enoturismo.
Localização: Ruta 15 Km 29 | Agrelo Luján de Cuyo
Finca Decero
A Finca Decero apresenta uma proposta bastante ligada ao terroir e à paisagem de Mendoza.
A experiência turística atual destaca justamente a possibilidade de conhecer o vinhedo, compreender o processo de elaboração dos vinhos e finalizar a visita com uma degustação guiada.
Primeiro, um passeio por entre barris de carvalho francês, tonéis de fermentação da uva e adegas para conhecer a história dessa bodega que começou, literalmente, do zero (daí o nome “Decero”). Uma terra antes árida e desértica foi transformada, videira por videira, em um fértil vinhedo.
Noventa e oito por cento da produção é exportada à Europa e aos Estados Unidos e quem visita a Finca Decero tem a oportunidade de degustar os melhores exemplares. Mas não espere uma degustação básica, com vinhos, pães e ponto final não. Assim como em outras bodegas refinadas de Mendoza, a Finca Decero faz das degustações uma experiência gastronômica incrível.
Clos de Chacras
A Clos de Chacras proporciona uma experiência diferente das grandes vinícolas.
Sua história está ligada à antiga Bodegas y Viñedos Gargantini, trazendo elementos históricos para a visita e mostrando uma Mendoza que vai além das grandes marcas contemporâneas.
O passeio pela vinícola é uma viagem no tempo. O simpático Nicolás Hartung nos dá uma aula de história enquanto caminha por entre antigos tanques de cimento, hoje revestidos de epóxi, usados para a fermentação do vinho e pela charmosa adega, construída no espaço antes usado para armazenar o vinho que seria transportado a Buenos Aires para o engarrafamento.
E depois da visita, vem a melhor hora! Degustar os vinhos Clos de Chacra harmonizados com os sabores que saem da cozinha comandada pelo chef Santiago Lopez.
Casarena
Técnicas milenares usadas por incas e huarpes seguem vivas na Bodega Casarena. As formas históricas de aproveitar cada gota de água que vem do Oceano Pacífico, que se transformam em gelo na Cordilheira dos Andes e correm até Mendoza por gretas e canais de irrigação, estão preservadas. E a paixão com que o italiano Carlos Bertona cuidou de suas uvas desde 1937 ainda move a vinícola.
Na Casarena, os números impressionam: são 300 hectares de plantações que produzem 1,5 milhão de litros de vinho por ano. Mas são os pequenos detalhes que fazem a diferença. Direto da fonte, experimentamos o suco doce que sai da uva horas depois da colheita, tiramos dos tonéis uma amostra de vinho branco jovem e sentimos os mais intensos aromas das bebidas que descansam em barris de carvalho.
O tour pela bodega é uma experiência riquíssima e prepara os visitantes para a melhor parte: uma sofisticada degustação em sete passos no refinado restaurante Casarena (cujo nome faz referência à cor da argila usada para revestir as paredes da vinícola).
Lagarde
Num equilíbrio harmônico entre passado e inovação, a vinícola Lagarde abre suas portas para mostrar a riqueza de detalhes com que produz cada uma das garrafas de espumante de alta gama e 1,2 milhão de litros de vinho por ano, sem perder as tradições que remontam aos idos de 1897.
A história da Lagarde começa com a chegada da família Pereira, imigrantes portugueses, à Mendoza para produz vinhos de mesa. Sem descendentes, os Pereira elegem a dedo quem iria conduzir a bodega depois de sua morte com uma condição: manter a vinícola exclusivamente argentina, fechada ao capital estrangeiro. E assim a família mendozina Pescarmona assumiu a missão.
A visita à vinícola começa pelo casarão original, datado de 1897, onde viveram os portugueses desde a sua chegada à Mendoza. Depois, é hora de passear por entre esteiras de separação das uvas, tanques de aço inoxidável, pias de cimento revestidas de epóxi e barris de carvalho por onde os vinhos passam durante o processo de elaboração que dura até cinco anos e cuja qualidade se mantém por três décadas dentro da garrafa.
E o fim da visita é a cereja do bolo! Um incrível almoço servido nos jardins da vinícola, à sombra de uma amoreira e ao lado do parreiral de uvas mais antigo da Lagarde, plantado em 1906.
Trapiche
A Trapiche mescla tradições às tecnologias de vanguarda na produção de 5 milhões de litros de vinho por ano. E, com foco absoluto na qualidade, chega ao topo do ranking de exportações na Argentina distribuindo suas bebidas a mais de 90 países do mundo.
Um feito que só é possível graças ao cuidado com que trata cada videira plantada em seus 1.200 hectares de terra e à busca incessante por inovações. Entenda como inovação a alta qualificação da guia de turismo Rosa Binanti (uma verdadeira embaixadora da Trapiche para os visitantes), o trato diferenciado dado pelo chef Lucas Bastos ao cardápio da degustação em sete passos do Espacio Trapiche e, principalmente, a ousadia de criação dos vinhos.
Ojo de Vino
Por trás do vinho, um artista. O suíço Dieter Meier empresta parte da sua genialidade como músico e cineasta para produzir aqui em Mendoza um célebre vinho. A história remonta à década de 1970, quando Meier veio à Argentina com o pai em uma viagem de trabalho e ficou surpreso com o potencial dessas terras. Depois de provar um legítimo Malbec argentino, ele decidiu investir no negócio e comprar 340 hectares no coração de Luján de Cuyo, o grande polo produtor de Mendoza, fundando a Bodega Ojo de Vino.
Nós fomos convidados a experimentar um Malbec da linha Puro, safra 2015, de sabor intenso graças à produção das uvas em uma região desértica, com grande amplitude térmica entre o dia e a noite, a mais de 1.000 metros de altitude e banhada pelas águas de degelo dos Andes. Delicioso!
Principalmente porque o vinho foi servido durante um incrível almoço nos jardins da vinícola, em meio às parreiras de uva, num ambiente descontraído e elegante do Restaurante Ojo de Água. O cardápio…. Hummmm…. Preparem-se!
Terrazas de los Andes
O mundo dos vinhos orbita em torno de críticos como Tim Atkin e James Suckling e de sites de avaliação de bebidas, a exemplo do WineAwards, Decanter, WineEnthusiast e Descorchados. Cada ponto conquistado nos rankings se transforma em sucesso e reconhecimento do vinho no mercado. E nessa disputa, a Terrazas de Los Andes tem experiência de sobra, que faz parte do grupo Louis Vuitton.
A fórmula para tanto sucesso? Difícil encontrar uma única, mas certamente ela passa pelo cuidado com as plantações de uva feitas em zonas de diferentes altitudes; mistura perfeita das variedades cultivadas em distintos solos, temperaturas e ventos; e, claro, perfeccionismo na fermentação e maturação do vinho.
Tudo realmente incrível! Especialmente porque é apresentado aos visitantes em uma deliciosa degustação dentro da vinícola, seguida de uma degustação premium acompanhada de empanadas, frios, queijos, embutidos e deliciosas sobremesas no casarão da vinícola.
Bodega López
Cada herdeiro da família López ganha de presente, ao nascer, 500 garrafas do célebre vinho Montchenot. A coleção descansa por pelo menos 18 anos, quando enfim o agraciado atinge a maioridade e pode escolher a melhor ocasião para apreciar o presente. Esse tesouro fica armazenado nas adegas da Bodega López em tonéis de carvalho e depois em garrafas que garantem qualidade e elegância aos vinhos. Mas essa dedicação primorosa não é exclusiva ao clã dos López. Toda a gigantesca produção de uma das maiores vinícolas da Argentina é tratada com o mesmo esmero.
E quando dizemos gigantesca, preparem-se para os superlativos: a Bodega López tem em seus estoques 100 milhões de garrafas de vinhos, montante que faz os executivos da empresa figurarem na lista da Revista Forbes como líderes em produção e faturamento. E tudo por lá é imenso! Cada uma das barricas de carvalho usadas para fermentação e armazenagem das bebidas tem capacidade para 35.700 litros (o convencional são tonéis de 200 litros). Na planta de produção, máquinas, esteiras e centenas de funcionários se revezam para engarrafar e etiquetar 10.000 garrafas por hora, num total de 80.000 garrafas por dia.
Pensam que é só vinho que se produz na Bodega López? Ledo engano! Um dos melhores azeites de Mendoza também sai dos olivais da López, plantados em 1932 com condições climáticas e de solo rigorosamente controladas para produzir azeitonas frescas e com nobres qualidades nutricionais. Cosméticos são outro forte da López, que investe em linhas de sabonetes líquidos e cremes corporais à base de uvas.
A visita à bodega é uma experiência riquíssima, que permite ver de perto todo o processo de produção do vinho, desde a colheita até o engarrafamento, passando inclusive pelos mágicos laboratórios químicos da empresa. E para fechar com chave de ouro a visita, vem a degustação dos vinhos no Restaurant Rincón de López.
Susana Balbo
Nem só de carnes vive a culinária argentina. Fazendo jus ao nome “Osadía de Crear”, o restaurante da bodega Susana Balbo presenteou a nossa visita a Mendoza com uma deliciosa combinação de peixes e massas cuidadosamente harmonizados com vinhos elegantes.
Mas o cardápio é só uma das surpresas da vinícola, comandada com pulso firme por Susana, a primeira mulher da Argentina a receber, em 1981, o título de enóloga. Em uma interessante trajetória profissional, ela desafiou um mercado até então tipicamente masculino e trabalhou durante quase três décadas assessorando vinícolas tradicionais mundo afora.
Outras atividades em Mendoza
Hospedagem
Tivemos uma grata experiência no hotel Cavas Wine Lodge, que pertence à rede Relais & Châteaux e ostenta todo o bom gosto do grupo que reúne os melhores hotéis do mundo.
A habitação tem dois pisos: no térreo, mais de 70 metros quadrados que abrigam sala de estar, quarto, closet, banheiro com hidromassagem e varanda com uma piscina privativa. No segundo piso, um terraço com lareira e um delicioso sofá com vista para as montanhas, os parreirais e o lindo céu estrelado de Mendoza.
Mas todo esse luxo fica pequeno perto da hospitalidade dos proprietários Cecilia e Martín. Além disso, pequenos mimos, degustação de vinhos com uma sommelier especializada nos potenciais de Mendoza, massagens e longas horas de relaxamento no spa fazem parte dos atrativos.
Cavalgada
Os picos nevados da Cordilheira dos Andes espreitam Mendoza como uma sentinela, sendo uma paisagem simplesmente fascinante! Ainda mais ao amanhecer, quando o branco do gelo ganha tons de vermelho e dourado ao receber os primeiros raios de sol.
Quer tornar essa experiência ainda mais incrível? Nossa dica é assistir a esse espetáculo em um cavalgada organizada pelos gaúchos César Fernandes e Elio Vitaliti, no Rancho Viejo Cabalgatas. Sobre um arreio confortável e com animais super dóceis, percorremos vinhedos, plantações de olivas e cavalgamos pelo leito do Rio Mendoza até chegar a lindos mirantes com vistas privilegiadas dos parreirais com os Andes ao fundo.
Para quem não gosta de acordar tão cedo, a dica é fazer cavalgada no fim da manhã, terminando com um almoço em uma das charmosas bodegas de Mendoza. Passeio imperdível para quem busca um diferencial no turismo pela capital argentina dos vinhos.
Relaxamento
As primeiras uvas foram cultivadas pela humanidade no Oriente Médio, há milhares de anos. Com o passar do tempo, as videiras se espalharam pela Europa e Américas até chegar a Mendoza nos idos de 1850. Hoje, elas são a vida e excelência da cidade que se transformou em capital do vinho na Argentina.
Eis que entra em cena o Entre Cielos, um hotel boutique em meio aos vinhedos mendocinos com a sensibilidade de resgatar as origens da uva e trazer das Arábias a inspiração para o seu luxuoso Spa Hammam. A sensação é de mergulhar no cenário das Mil e Uma Noites. Um santuário dedicado ao relaxamento e às práticas turcas de purificação através de saunas, banhos esfoliantes e tratamentos com vinho.
Quando ir para Mendoza?
Mendoza pode ser visitada durante todo o ano, mas cada estação oferece uma experiência diferente. Antes de montar o roteiro, vale considerar as temperaturas, as atividades que você pretende fazer e, principalmente, as roupas que deverá levar na mala.
O outono é interessante para quem quer conhecer a região durante o período da Vindima, quando a colheita das uvas movimenta as cidades e vinícolas. As temperaturas costumam ser mais agradáveis para passeios ao ar livre, e as paisagens ganham os tons característicos da estação.
Para os viajantes que desejam combinar passeios para explorar a Cordilheira dos Andes, o inverno é uma ótima opção. As temperaturas são baixas, e o cenário pode ficar ainda mais especial com os picos nevados.
Com temperaturas mais amenas e paisagens começando a ganhar novas cores, a primavera é interessante para quem prefere viajar sem enfrentar o frio mais intenso do inverno.
O verão apresenta temperaturas mais elevadas e pode ser uma boa escolha para quem deseja aproveitar os espaços externos das vinícolas, embora seja importante considerar o calor durante os deslocamentos.
O que levar na mala para Mendoza no inverno?
Não subestime o frio na hora de preparar a mala de inverno. Mesmo quando o roteiro envolve restaurantes e degustações, muitas visitas às vinícolas incluem caminhadas entre parreirais e áreas externas.
Uma boa combinação para os dias frios inclui segunda pele térmica, fleece ou outra camada intermediária, casaco adequado para a temperatura, calça confortável, meias térmicas e calçados apropriados para caminhar. Todos esses itens, você encontra na Fiero.
Se o roteiro incluir neve e a Cordilheira dos Andes, vale reforçar a proteção com gorro, luvas, cachecol e peças resistentes ao vento e à umidade. A quantidade e o tipo de peças devem ser definidos de acordo com a previsão do tempo e as atividades planejadas.




























